quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Morris



Um pequeno pormenor, mas muito importante, é que os carnívoros têm pulgas e os primatas não. Os macacos e símios são empestados por piolhos e outros parasitas externos, mas, contrariamente à opinião popular, nunca têm pulgas, por uma razão muito simples. Para a compreender é preciso estudar o ciclo evolutivo das pulgas. Estes insectos põem ovos, não no corpo dos hospedeiros, mas entre os detritos que se encontram no local onde a vítima dorme. Os ovos levam três dias para chocar umas pequeninas larvas rastejantes, que não se alimentam de sangue, mas de substâncias acumuladas no lixo do abrigo ou da toca. Passadas duas semanas, elas tecem um casulo e permanecem no estado de pupa durante aproximadamente outro tanto tempo. Então, surgem as formas adultas, prontas a saltar para o corpo de um hospedeiro conveniente. Assim, pelo menos durante um mês, as pulgas vivem fora do hospedeiro. Daqui resulta claramente que os mamíferos nómadas, tal como os macacos e símios, não são incomodados pelas pulgas. Mesmo se algumas pulgas errantes caem em cima de um deles e se reproduzem, os ovos ficarão abandonados quando o grupo de primatas se desloca, e quando as pupas chocam já não apanham o hospedeiro para prosseguir o convívio

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Chatwin



- Então o Porco-Espinho passa por aqui?
- É mesmo patrão - respondeu Joshua sorrindo. - Está a vê-lo muito bem.
Traçou o trajecto do Porco-Espinho que atravessava a pista de aviação, passava pela escola e pela bomba e depois corria ao longo do sopé da falésia Perenty antes de voltar a descer rumo à planície.
- Pode cantá-lo para mim? - pedi. - Pode cantá-lo a caminho daqui?
Olhou à volta para se certificar de que ninguém o podia ouvir e, em voz profunda, cantou vários dísticos do Porco-Espinho, batendo com a unha num pedaço de cartão para marcar o compasso.
- Obrigado - agradeci-lhe.
- Patrão.
- Conte-me outra história.
- Gosta destas histórias?
- Gosto, sim.
- Ok, Patrão! - Balançou a cabeça de um lado para o outro. - A história sobre a Grande Mosca.
- A libélula?
- Maior.
- Pássaro?
- Ainda maior.
Ao reproduzir um trilho de canto na areia, os Aborígenes traçam uma série de linhas alternadas com círculos. Uma dada linha representa uma etapa da viagem do antepassado (correspondendo normalmente a um dia de marcha). Cada círculo é uma “escala”, bebedouro de água, ou um dos acampamentos do Antepassado. Mas a história da Grande Mosca ultrapassou-me.
Começava por grandes traços em linha recta e, a seguir, ondulava um labirinto rectangular para terminar, finalmente, numa série de ziguezagues. Enquanto desenhava cada secção, Joshua trauteava em inglês: - Oh! Oh! Têm dinheiro ali.
Naquela manhã, eu não devia estar muito bom da cabeça: levei muito tempo até perceber que se tratava de um Sonho da Qantas, a companhia aérea australiana. Joshua tinha ido uma vez a Londres de avião. O “labirinto” era o aeroporto de Londres: a porta de chegada, os serviços de saúde e de imigração, a alfândega e, depois, o trajecto até à cidade no metro. Os “ziguezagues” eram as voltas que o taxi dera da estação de metro ao hotel.

Bloom



Há uma procura cada vez mais desesperada, de arranjos e vias para reunir os pedaços quebrados. A tarefa é equivalente a tentar tornar o círculo quadrado, porque cada um de nós já se ama muitíssimo a si próprio mas quer ainda que os outros nos amem mais do que eles se amam a si próprios.

Via Ferrata


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Platão



[O jovem democrático] vive o seu dia-a-dia, satisfazendo os desejos que lhe ocorrem no momento, umas vezes bebendo e ouvindo flauta, outras vezes emborcando água e emagrecendo, ora praticando ginástica, ora mandriando de novo e negligenciando tudo; e às vezes passando o seu tempo como se estivesse ocupado com filosofia. Muitas vezes ocupa-se de política e depois repentinamente diz e faz aquilo que bem lhe aprouver; e se admira alguns soldados, volta-se para essa direcção; e se são os que ganham muito dinheiro, volta-se para esses, e não há ordem nem constrangimento na sua vida, mas achando-a doce, livre e abençoada, segue-a por ali fora.

Bashô

















Os dias e os meses são viajantes da eternidade…eu próprio fui tentado durante muito tempo pelo vento que movia as nuvens - cheio de um forte desejo de vaguear.








segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Cacuana



Lança afiada não precisa brilho

Asceta



Para onde quer que ides, nada vos pertence, excepto o chão que pisais, até que, quando morrerdes possuíras um pouco mais: o suficiente para vos deitardes

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Ayesha





A raiva cruel do tirano pode ser uma bênção para milhares que vierem depois dele, e a doçura de um homem santo pode escravizar uma nação

Séneca



Ter muito ou o suficiente, essa é a diferença... quem já tem muito, quer sempre mais. essa é a prova de que não tem o suficiente. aquele que tem o suficiente, obteve aquilo que o rico jamais conhecerá, o fim do seu desejo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Konrad























“Apenas dois animais entraram no lar humano noutra qualidade que não a de prisioneiros, e foram domesticados por outros meios que não a servidão forçada: são eles o cão e o gato. Ambos partilham duas características a saber, ambos pertencem à ordem dos carnívoros e ambos servem o homem na sua qualidade de caçadores. Em tudo o resto, e antes de mais na forma como se associam ao homem, eles são tão diferentes um do outro como a noite do dia. Não há animal doméstico que tenha alterado tão radicalmente todo o seu modo de vida, até mesmo toda a sua esfera de interesses, que se tenha tornado doméstico duma forma tão genuína como o cão; e não há animal que, no decurso da sua associação secular com o homem, tenha mudado tão pouco como o gato.”
Konrad Lorenz

Baudelaire



É preciso estar sempre embriagado. É isso mesmo: é a única questão. Para não sentir o fardo horrível do Tempo que nos verga os ombros e nos inclina para a terra, é preciso que nos embriaguemos sem cessar.
Mas com quê? Com vinho, poesia ou virtude, como vos aprouver. Mas embriagai-vos.
E se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de um valado, na solidão triste do vosso quarto, acordardes com a embriaguês já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio, responder-vos-ão: “É hora de vos embriagardes! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, como vos aprouver.”
Charles Baudelaire

Baderna





"Não queremos ocupar as ruas e gritar, queremos ocupar as ruas para brincar"