As histórias pessoais, além de se passarem, também dizem alguma coisa? Apesar de todo o meu cepticismo, restou-me um pouco de superstição irracional, como aquela curiosa convicção de que tudo o que me acontece tem para além do mais um sentido, que significa qualquer coisa; que pela sua própria aventura a vida nos fala, nos revela gradualmente um segredo, que se nos oferece como um enigma a decifrar, que as histórias que vivemos formam ao mesmo tempo uma mitologia da nossa vida e que essa mitologia detém a chave da verdade e do mistério. Será uma ilusão? É possível, mesmo verosímil, mas não posso reprimir essa necessidade de continuamente decifrar a minha própria vida.
terça-feira, 28 de julho de 2009
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Desconhecido
terça-feira, 7 de abril de 2009
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Missionary Travels
A sensação de ser lacerado por um felino, conforme sabemos pela experiência do Dr. Livingstone com um leão, pode ser ligeiramente menos horrível do que imaginamos. “Provoca - escreveu ele - uma espécie de tontura em que não se sente nem dor nem medo. É como a descrição feita por pacientes que, sob o efeito do clorofórmio, assistem à sua própria operação sem sentirem o bisturi…” Tal sensação é provavelmente a mesma que sentem todos os animais mortos por carnívoros e, se assim é, temos de agradecer ao nosso benevolente criador por atenuar o sofrimento da morte.
sexta-feira, 27 de março de 2009
Hardy
Eco
Em busca de uma fé alternativa, apaixono-me pelos decadentes. Irmãos, lírios tristes, languesço de beleza…
Transformo-me num eunuco bizantino que vê passar os grandes bárbaros brancos compondo acrósticos indolentes, instituo com a ciência o hino dos corações espirituais, na minha obra de impaciência, percorro atlas, herbários e rituais
Bridges
sexta-feira, 20 de março de 2009
Wordsworth
terça-feira, 17 de março de 2009
Desconhecido
segunda-feira, 16 de março de 2009
Jobim
segunda-feira, 9 de março de 2009
Trabon
Queridos amigos:
Coisas que destruí:
1 farol
1 lanterna traseira
1 prateleira de bagagem
2 aros
1 jogo de limpa pára-brisa
1 capota de Toyota
2 jogos de suspensão de Toyota
1 par de óculos escuros caros
1 barraca
1 câmara
1 galinha (viva)
1 mala
1 rede
12 melancias
Coisas que perdi:
1 pneu sobressalente
1 jerrican de gasolina (cheio)
2 namoradas
1 matrícula
2 calças
A maioria das minhas meias
2 pares de sapatos
5 camisas
120 metros de corda
Minha saúde
Minha calma (três vezes)
Coisas que recebi:
Mais de 300 000 picadas de mosquitos
145 000 picadas não identificadas
637 cortes e esfoladuras
1 ataque agudo de ansiedade por causa de índios hostis
47 ataques menores de ansiedade por causa de insectos grandes não identificados
Cinetose
Diarreia
Cólicas no estômago
Pelo menos uma brincadeira horrível de cada membro da equipa
Coisas de que eu gostava antes, mas agora não aprecio mais:
Tudo o que é verde
Arroz
Jipes
quinta-feira, 5 de março de 2009
Desconhecido

Que estranha criatura. Surgiu do nada, rodeado por besouros e ofereceu-me um cágado. Noutro dia falou-me do veneno do escorpião, e contou-me a história de um pastor que foi picado por um. Não morreu, mas enlouqueceu. Escorpiões…
Quantos anos eu tinha? Onze, doze…a fronteira entre a excentricidade e a estupidez é tão difícil de definir. Um pouco como a da realidade e da fantasia. As salamandras debaixo das pedras. A companhia de uma matilha de cães durante as longas viagens.
“That silly boy!”
Será que cheguei mesmo a ver um casal de iguanas ao sol junto ao poço? Impossível. Mas é uma recordação tão real. A velocidade das andorinhas enquanto voavam rasando o asfalto, tudo me pasmava muito mais quando ainda não conhecia…
Bach
Saint-Exupèry
Esse trigo, amanhã terá mudado. O trigo é mais do que alimento carnal. Alimentar o homem não é engordar o gado. O pão revela tantos significados! Aprendemos a reconhecer no pão um instrumento da comunidade dos homens, quando se reparte em conjunto. Aprendemos a reconhecer no pão a imagem da grandeza do trabalho, quando se ganha com o suor do rosto. Aprendemos a reconhecer no pão o veículo essencial da piedade quando se distribui nos momentos de miséria. O sabor do pão partilhado não tem igual. Ora, todo o poder desse alimento espiritual, do pão espiritual que nascerá desse campo de trigo, está em perigo. O camponês, quando partir amanhã o pão, talvez já não sirva a mesma religião familiar. Talvez o pão já não alimente amanhã a mesma luz dos olhares. O pão é como o azeite das candeias. Transforma-se em luz.
segunda-feira, 2 de março de 2009
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Morris
Um pequeno pormenor, mas muito importante, é que os carnívoros têm pulgas e os primatas não. Os macacos e símios são empestados por piolhos e outros parasitas externos, mas, contrariamente à opinião popular, nunca têm pulgas, por uma razão muito simples. Para a compreender é preciso estudar o ciclo evolutivo das pulgas. Estes insectos põem ovos, não no corpo dos hospedeiros, mas entre os detritos que se encontram no local onde a vítima dorme. Os ovos levam três dias para chocar umas pequeninas larvas rastejantes, que não se alimentam de sangue, mas de substâncias acumuladas no lixo do abrigo ou da toca. Passadas duas semanas, elas tecem um casulo e permanecem no estado de pupa durante aproximadamente outro tanto tempo. Então, surgem as formas adultas, prontas a saltar para o corpo de um hospedeiro conveniente. Assim, pelo menos durante um mês, as pulgas vivem fora do hospedeiro. Daqui resulta claramente que os mamíferos nómadas, tal como os macacos e símios, não são incomodados pelas pulgas. Mesmo se algumas pulgas errantes caem em cima de um deles e se reproduzem, os ovos ficarão abandonados quando o grupo de primatas se desloca, e quando as pupas chocam já não apanham o hospedeiro para prosseguir o convívio
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Chatwin
- Então o Porco-Espinho passa por aqui?
- É mesmo patrão - respondeu Joshua sorrindo. - Está a vê-lo muito bem.
Traçou o trajecto do Porco-Espinho que atravessava a pista de aviação, passava pela escola e pela bomba e depois corria ao longo do sopé da falésia Perenty antes de voltar a descer rumo à planície.
- Pode cantá-lo para mim? - pedi. - Pode cantá-lo a caminho daqui?
Olhou à volta para se certificar de que ninguém o podia ouvir e, em voz profunda, cantou vários dísticos do Porco-Espinho, batendo com a unha num pedaço de cartão para marcar o compasso.
- Obrigado - agradeci-lhe.
- Patrão.
- Conte-me outra história.
- Gosta destas histórias?
- Gosto, sim.
- Ok, Patrão! - Balançou a cabeça de um lado para o outro. - A história sobre a Grande Mosca.
- A libélula?
- Maior.
- Pássaro?
- Ainda maior.
Ao reproduzir um trilho de canto na areia, os Aborígenes traçam uma série de linhas alternadas com círculos. Uma dada linha representa uma etapa da viagem do antepassado (correspondendo normalmente a um dia de marcha). Cada círculo é uma “escala”, bebedouro de água, ou um dos acampamentos do Antepassado. Mas a história da Grande Mosca ultrapassou-me.
Começava por grandes traços em linha recta e, a seguir, ondulava um labirinto rectangular para terminar, finalmente, numa série de ziguezagues. Enquanto desenhava cada secção, Joshua trauteava em inglês: - Oh! Oh! Têm dinheiro ali.
Naquela manhã, eu não devia estar muito bom da cabeça: levei muito tempo até perceber que se tratava de um Sonho da Qantas, a companhia aérea australiana. Joshua tinha ido uma vez a Londres de avião. O “labirinto” era o aeroporto de Londres: a porta de chegada, os serviços de saúde e de imigração, a alfândega e, depois, o trajecto até à cidade no metro. Os “ziguezagues” eram as voltas que o taxi dera da estação de metro ao hotel.
Bloom
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Platão
[O jovem democrático] vive o seu dia-a-dia, satisfazendo os desejos que lhe ocorrem no momento, umas vezes bebendo e ouvindo flauta, outras vezes emborcando água e emagrecendo, ora praticando ginástica, ora mandriando de novo e negligenciando tudo; e às vezes passando o seu tempo como se estivesse ocupado com filosofia. Muitas vezes ocupa-se de política e depois repentinamente diz e faz aquilo que bem lhe aprouver; e se admira alguns soldados, volta-se para essa direcção; e se são os que ganham muito dinheiro, volta-se para esses, e não há ordem nem constrangimento na sua vida, mas achando-a doce, livre e abençoada, segue-a por ali fora.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Asceta
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Konrad
“Apenas dois animais entraram no lar humano noutra qualidade que não a de prisioneiros, e foram domesticados por outros meios que não a servidão forçada: são eles o cão e o gato. Ambos partilham duas características a saber, ambos pertencem à ordem dos carnívoros e ambos servem o homem na sua qualidade de caçadores. Em tudo o resto, e antes de mais na forma como se associam ao homem, eles são tão diferentes um do outro como a noite do dia. Não há animal doméstico que tenha alterado tão radicalmente todo o seu modo de vida, até mesmo toda a sua esfera de interesses, que se tenha tornado doméstico duma forma tão genuína como o cão; e não há animal que, no decurso da sua associação secular com o homem, tenha mudado tão pouco como o gato.”
Konrad Lorenz
Baudelaire
É preciso estar sempre embriagado. É isso mesmo: é a única questão. Para não sentir o fardo horrível do Tempo que nos verga os ombros e nos inclina para a terra, é preciso que nos embriaguemos sem cessar.
Mas com quê? Com vinho, poesia ou virtude, como vos aprouver. Mas embriagai-vos.
E se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de um valado, na solidão triste do vosso quarto, acordardes com a embriaguês já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio, responder-vos-ão: “É hora de vos embriagardes! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, como vos aprouver.”
Charles Baudelaire
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