quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Chatwin



- Então o Porco-Espinho passa por aqui?
- É mesmo patrão - respondeu Joshua sorrindo. - Está a vê-lo muito bem.
Traçou o trajecto do Porco-Espinho que atravessava a pista de aviação, passava pela escola e pela bomba e depois corria ao longo do sopé da falésia Perenty antes de voltar a descer rumo à planície.
- Pode cantá-lo para mim? - pedi. - Pode cantá-lo a caminho daqui?
Olhou à volta para se certificar de que ninguém o podia ouvir e, em voz profunda, cantou vários dísticos do Porco-Espinho, batendo com a unha num pedaço de cartão para marcar o compasso.
- Obrigado - agradeci-lhe.
- Patrão.
- Conte-me outra história.
- Gosta destas histórias?
- Gosto, sim.
- Ok, Patrão! - Balançou a cabeça de um lado para o outro. - A história sobre a Grande Mosca.
- A libélula?
- Maior.
- Pássaro?
- Ainda maior.
Ao reproduzir um trilho de canto na areia, os Aborígenes traçam uma série de linhas alternadas com círculos. Uma dada linha representa uma etapa da viagem do antepassado (correspondendo normalmente a um dia de marcha). Cada círculo é uma “escala”, bebedouro de água, ou um dos acampamentos do Antepassado. Mas a história da Grande Mosca ultrapassou-me.
Começava por grandes traços em linha recta e, a seguir, ondulava um labirinto rectangular para terminar, finalmente, numa série de ziguezagues. Enquanto desenhava cada secção, Joshua trauteava em inglês: - Oh! Oh! Têm dinheiro ali.
Naquela manhã, eu não devia estar muito bom da cabeça: levei muito tempo até perceber que se tratava de um Sonho da Qantas, a companhia aérea australiana. Joshua tinha ido uma vez a Londres de avião. O “labirinto” era o aeroporto de Londres: a porta de chegada, os serviços de saúde e de imigração, a alfândega e, depois, o trajecto até à cidade no metro. Os “ziguezagues” eram as voltas que o taxi dera da estação de metro ao hotel.

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